Gaeco prendeu 13 pessoas em cinco estados por envolvimento em organização criminosa que movimentou milhões em fraudes bancárias com precatórios; vítimas recebiam valores irrisórios por créditos altos
O Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) deflagrou, nesta terça-feira (22), a Operação Entre Lobos, que resultou na prisão de 13 pessoas suspeitas de integrar uma organização criminosa especializada em aplicar golpes milionários contra idosos, aposentados e pessoas vulneráveis em várias regiões do país.
A operação foi realizada de forma conjunta em Santa Catarina, Ceará, Bahia, Rio Grande do Sul e Alagoas, com o cumprimento de mandados de prisão e busca e apreensão. Entre os detidos estão um vereador e seis advogados, além de empresários ligados a empresas de fachada utilizadas para os golpes.
Sete presos em Santa Catarina
Em Santa Catarina, sete pessoas foram presas em cidades do Oeste e Planalto Norte:
- Chapecó: João Paulo Ferronato, sócio da Ativa Precatórios (prisão preventiva), e o advogado Pablo Augusto Urqueta Gomez, da OAB de Palmitos (prisão preventiva);
- Xanxerê: a advogada Gabrieli Juli Gandolfi (prisão temporária);
- Xaxim: o advogado e atual vereador Uilian Cavalheiro, da OAB local (prisão preventiva);
- Pinhalzinho: Ilete Maria Rodrigues de Farias (prisão temporária);
- Itapiranga: Jacinta Maria Nyland (prisão temporária);
- Irineópolis: Mirian Kelli Klodzinski (prisão temporária).
Prisões em outros estados
- Ceará: Osvaldo Janeri Filho, cientista em inteligência jurídica (prisão preventiva), e as advogadas Laliane Correia de Arruda e Thais de Mendonça Angeloni (prisões preventivas);
- Bahia: Julio Manuel Urqueta Gomez Júnior e Cassiane Rigo, ambos advogados com registro em Chapecó (prisões preventivas).
Esquema fraudava precatórios e lesava idosos
Segundo o Gaeco, o grupo atuava desde o fim de 2022, captando vítimas por meio de visitas domiciliares, oferecendo serviços de revisão de contratos bancários. Após obter a assinatura dos idosos, os criminosos voltavam a procurá-los quando os processos já estavam perto da sentença, oferecendo valores irrisórios pela cessão de créditos que ultrapassavam os R$ 100 mil.
Entre os casos apurados:
- Uma vítima com crédito de R$ 146 mil recebeu apenas R$ 2,5 mil (1,71%);
- Outra com direito a R$ 117 mil também recebeu R$ 2,5 mil (2,12%);
- Uma terceira, com crédito de R$ 115 mil, foi paga com R$ 2 mil (1,73%).
O lucro obtido era dividido entre os integrantes do grupo, que operava com estrutura empresarial: havia setores financeiro, político, jurídico, de captação e empresas de fachada. As principais empresas utilizadas eram a Ativa Precatórios, com sede em Pinhalzinho (SC), e a BrasilMais Precatórios, de Fortaleza (CE).
OAB e Câmara se manifestam
A OAB/SC acompanhou as diligências e informou que aguarda os relatórios da operação para avaliar eventuais medidas disciplinares, como suspensão dos advogados envolvidos. A subseção da OAB de Chapecó também afirmou que acompanha o caso.
A Câmara de Vereadores de Xaxim, onde atua o vereador preso Uilian Cavalheiro, informou que não se pronunciará sobre o caso, pois “não há qualquer vinculação com o mandato legislativo”. A Casa confirmou que o parlamentar solicitou licença do cargo.
Empresas e defesas
Até o momento, as defesas dos acusados não se manifestaram ou não foram localizadas. O espaço segue aberto para pronunciamento dos citados.
O escritório de advocacia em que atuam alguns dos investigados afirmou, em nota, que segue funcionando normalmente e que não é alvo da investigação.
Como o esquema foi descoberto
O esquema foi revelado após vítimas procurarem a Promotoria de Justiça de Modelo (SC). A partir disso, o Gaeco rastreou dois escritórios de advocacia fictícios, mais de 200 vítimas e cerca de R$ 30 milhões bloqueados pela Justiça.
Durante a apuração, foram encontrados documentos que mostram lavagem de dinheiro, divisão de lucros, procurações falsas e indícios de patrocínio infiel — quando advogados atuam contra os interesses de seus próprios clientes.
Orientação às vítimas
Quem se reconhecer como vítima do golpe deve procurar a Delegacia de Polícia Civil mais próxima e registrar um boletim de ocorrência. Os casos serão encaminhados ao Ministério Público para investigação e eventual ressarcimento.
Fonte: ND+