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Jorginho Mello sugere separação do Sul e reacende debate sobre movimento separatista

Durante um evento realizado em Curitiba na semana que passou, o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), trouxe à tona um tema polêmico e historicamente controverso: a separação da região Sul do restante do Brasil. Dividindo o palco com os governadores do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), o catarinense fez referência ao movimento separatista “O Sul é Meu País”, ao dizer que, caso “o negócio não funcione muito bem lá para cima”, os estados do Sul poderiam “passar uma trena para o lado de cá” e criar uma nação independente.

A declaração, feita em tom de brincadeira durante o evento promovido por uma entidade da construção civil, gerou repercussão nas redes e entre especialistas. Procurada pela reportagem, a assessoria de Mello não retornou aos pedidos de comentário.

Raízes históricas e contradições do separatismo

A fala reacendeu o debate sobre o separatismo sulista, tema que tem raízes profundas na história do Brasil. Segundo o sociólogo Gabriel Pancera Aver, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), movimentos de contestação ao governo central no Sul remontam ao período imperial, com episódios como a Revolução Farroupilha (RS) e a Guerra do Contestado (SC e PR).

Aver, que pesquisa o tema desde o mestrado e atualmente o aprofunda no doutorado, lembra que, embora outras regiões também tenham passado por conflitos semelhantes, o Sul manteve viva a discussão separatista ao longo das décadas. “O Brasil foi unificado à força, com repressão a várias revoltas regionais”, comenta.

O movimento “O Sul é Meu País” surgiu oficialmente em 1992, em meio a uma crise nacional e ao surgimento de outros grupos com propostas separatistas, como o Pampa Livre e o Partido da República Farroupilha. Entre os argumentos mais utilizados pela organização está o de que a região Sul contribui com altos impostos à União, mas recebe pouco em retorno por meio de serviços públicos.

Identidade sulista: entre o orgulho regional e a dependência federal

Para o pesquisador, o movimento é sustentado mais por um sentimento de identidade regional do que por um projeto político ou econômico estruturado. “O discurso deles é muito mais identitário, centrado no ‘somos sulistas’, do que em dados concretos de viabilidade econômica ou institucional”, avalia Aver.

Essa identidade, porém, é permeada por contradições. O sociólogo identificou, ao analisar textos de lideranças do movimento, que o conceito de “ser sulista” mistura referências indígenas, como os líderes Tiaraju e Guairacá, com um forte orgulho da herança europeia dos imigrantes que colonizaram a região.

“As contradições aparecem também na prática. Por exemplo, em situações de crise, como a tragédia climática que atingiu o Rio Grande do Sul no ano passado, a região recorreu ao apoio federal para a reconstrução. Aí, o discurso de independência cede lugar ao de unidade nacional”, observa.

Xenofobia e preconceito

Outro aspecto apontado por Aver é a presença de um viés xenofóbico em parte da retórica do movimento, ainda que as lideranças neguem tal intenção. “É comum encontrar o discurso de que o Sul é mais organizado, mais trabalhador, em contraste com outras regiões. Isso reforça estereótipos e alimenta preconceitos contra migrantes nordestinos e de outras partes do país”, diz o sociólogo.

Ele destaca que esse discurso tem momentos de reforço e retração, dependendo do cenário político nacional. Durante o bolsonarismo, por exemplo, Aver observou que muitos adeptos do movimento se voltaram mais para a identidade de “ser brasileiro” do que propriamente “sulista”. Em entrevistas feitas durante seu doutorado, uma das participantes afirmou que, apesar de defender os ideais sulistas, votaria contra a separação. O motivo? “Brasil acima de tudo”, repetindo o lema do então presidente Jair Bolsonaro.

Alcance e futuro do movimento

Embora minoritário, o movimento separatista mantém certa expressividade. Em uma consulta pública informal realizada em 2017, aproximadamente 325 mil pessoas votaram favoravelmente à separação da região Sul — cerca de 2% do eleitorado dos três estados. O número, apesar de pequeno, é considerado relevante, especialmente por ter sido obtido de forma voluntária, sem apoio oficial.

Hoje, segundo Aver, o movimento carece de um plano prático sobre como viabilizar a independência. “Não existe um projeto econômico, político ou institucional detalhado sobre como seria essa nova nação”, pontua.

Em resposta à BBC News Brasil, o presidente atual do movimento, Ivan Feloniuk, afirmou que o grupo prepara um novo passo: a elaboração de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para estabelecer um “modelo federalista autêntico”. A intenção, segundo ele, é limitar os poderes da União e ampliar a autonomia de estados e regiões.

“A independência é nosso foco, mas é preciso ir além. Não é aceitável permanecer num país onde tudo gira em torno de Brasília”, disse Feloniuk, por WhatsApp. Ele informou ainda que o texto da PEC deverá ser apresentado até novembro, durante o congresso nacional do movimento em Canoas (RS).

Sobre a fala de Jorginho Mello, Feloniuk avaliou: “Ainda que em tom de brincadeira, ela exprime o desejo do povo”.

Jorginho Mello em evento com Leite e Ratinho Júnior: comentário foi feito quando governador de SC se dirigia aos colegas como pré-candidatos à eleição de 2026 — Foto: Valterci Santos/CBIC

Fonte: Com informações do G1